Longe de cumprir a meta de corte do metano, a UE tem um problema: a pecuária

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Apesar de avanços em energia e gestão de resíduos, conter o arroto dos bois, inovando na pecuária, continua sendo um problema de difícil solução para os europeus

Por Natalia Viri, capitalreset.com
Publicado em 7 de outubro de 2022


A União Europeia está longe de conseguir cumprir seu objetivo de cortar em 30% suas emissões de metano até 2030, conforme se comprometeu a fazer na COP26 ao lado de 100 outros países, incluindo o Brasil.


Um documento elaborado pela Comissão Europeia e obtido pela Bloomberg mostra que a região está a caminho de um corte de 23% nas emissões de metano até o fim da década.


Apesar dos avanços nas áreas de energia e de gestão de resíduos, o grande problema continua sendo a pecuária, responsável por mais de metade da emissão do gás – até 80 vezes mais potente do que o dióxido de carbono num horizonte de 20 anos – do bloco.


O diagnóstico numa das regiões mais avançadas do planeta no combate ao aquecimento global destaca o tamanho do desafio para o Brasil, em que a fermentação entérica do imenso rebanho de gado é uma das principais fontes de gases de efeito estufa, ao lado do desmatamento.


Na UE, as emissões nos setores de energia, relacionadas principalmente a vazamentos em poços e dutos de petróleo e gás, e de gestão de resíduos – controláveis com aumento de reciclagem e destinação correta do lixo –, estão em trajetória de queda de 30%, mas as da agricultura são mais difíceis de abater mostra o documento.


“O setor com a maior contribuição remanescente na UE é também o setor em que atingir reduções adicionais é mais desafiador, devido aos custos e à natureza dos processos biológicos envolvidos”, aponta o material.


A Comissão Europeia, o órgão executivo do bloco, reconhece que mudanças na dieta dos animais podem contribuir para reduções “no médio e longo prazos”. Diversos suplementos para rações que reduzem as emissões de metano dos arrotos dos bois, porcos e ovelhas vêm sendo testados. Um deles é o Bovaer, da holandesa DSM, que foi a mercado no ano passado.


No Brasil, a Marfrig testa um composto bioquímico da Cargill, que recolhe parte do hidrogênio gerado na ruminação e combina com o carbono, gerando amônia em vez de metano. Essas iniciativas, no entanto, ainda têm pouca escala.


A conclusão da Comissão Europeia mostra que podem ser necessárias escolhas mais difíceis do ponto de vista político para realmente cortar as emissões do setor. “Ação adicional em outros setores que não a agricultura não serão capazes de assegurar o nível de ambição do Compromisso Global de Metano”, disse o órgão executivo da UE.


Na Holanda, a imposição por parte do governo de metas agressivas para o corte na emissão de nitrogênio na agricultura vem causando uma onda de protestos dos criadores de gado, que afirmam que só será possível atingi-las com a redução dos rebanhos.


O governo do país argumenta que é possível reduzir a pecuária intensiva e migrar para modelos mais verdes e sustentáveis, que integrem pecuária e agrofloresta.

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