Entenda como a combinação de calor extremo e umidade do ar pode ultrapassar a capacidade de sobrevivência neste ambiente mais ameaçado do Brasil.
Por José Aluízio Ferreira Lima[1]
Introdução: O Alerta Vem do Ar
Imagine um mundo onde sair de casa em certos dias pode significar colocar sua vida em risco apenas por estar exposto ao ar quente e úmido. Esse cenário, que parece distópico, está cada vez mais próximo da realidade, especialmente no Cerrado brasileiro. Estudos recentes revelam que a combinação entre o aquecimento global e o desmatamento acelerado está conduzindo a região a um ponto de ruptura. A ameaça tem nome técnico: Temperatura de Bulbo Úmido (TW). E o limite perigoso já está no horizonte: 35 °C de TW, o ponto em que o corpo humano não consegue mais se resfriar naturalmente.
Este artigo busca explicar, em linguagem acessível, o que está acontecendo com o clima do Cerrado, como a destruição da vegetação agrava a situação e o que esse tal TW significa para o futuro dos seres humanos, animais e plantas da região. A seguir, entenda por que proteger o Cerrado é também proteger a vida.
1. O que é TW (Temperatura de Bulbo Úmido) e por que ela é tão perigosa
1.1. Conceito Básico: O que a TW mede
A Temperatura de Bulbo Úmido (TW) é uma medida que combina temperatura do ar com umidade relativa. Em termos simples, ela mostra o quão quente o ambiente realmente está para o corpo humano — considerando se o suor consegue ou não evaporar.
Imagine que você está em um dia muito quente e começa a suar. Se o ar estiver seco, o suor evapora rapidamente e seu corpo se resfria. Mas se o ar estiver úmido, como em dias abafados de verão, o suor não evapora direito. Resultado? Você não transpira, então não resfria — e o calor vai se acumulando dentro de você.
A TW representa esse limite: quanto mais alta a umidade do ar, menor a capacidade de evaporação do suor — e, portanto, maior o risco de superaquecimento do corpo.
1.2. Como é medida a TW
A temperatura de bulbo úmido é medida com um instrumento simples: um termômetro comum coberto com um pano úmido (geralmente de algodão), ventilado por um pequeno ventilador. Isso simula o processo de resfriamento evaporativo, como acontece com o corpo humano ao suar.
- Se o ar estiver seco, a água do pano evapora rapidamente e o termômetro registra uma temperatura bem abaixo da temperatura ambiente (bulbo seco).
- Se o ar estiver úmido, a evaporação diminui e o termômetro registra uma temperatura quase igual à do ar.
Essa medição é essencial para entender o potencial de resfriamento do ambiente sobre um corpo vivo.
1.3. O limite de 35 °C: o ponto de colapso fisiológico
Pesquisadores descobriram, com base em experimentos e modelos fisiológicos, que existe um limite máximo absoluto para a sobrevivência humana: TW = 35 °C.
Por quê? Porque:
- A temperatura interna ideal do corpo humano é de aproximadamente 36,8 °C.
- Para manter essa temperatura, o calor precisa sair do corpo, indo da pele para o ambiente.
- Esse calor só pode ser dissipado se a pele estiver mais quente que o ar ao redor.
- Quando a temperatura da pele chega a cerca de 35 °C, ela se iguala à do ambiente com TW de 35 °C — e não há mais como perder calor.
- Além disso, o suor para de evaporar. O mecanismo natural de resfriamento falha.
Resultado: o corpo começa a superaquecer mesmo em repouso, na sombra, nu e com água à disposição. Após algumas horas de exposição, pode ocorrer morte por hipertermia.
Importante: TW de 35 °C não é igual à temperatura do ar comum. Um dia com 35 °C de temperatura normal pode ter TW de apenas 26 °C se o ar estiver seco. Mas, se o mesmo dia estiver com umidade relativa do ar próxima de 90%, a TW pode se aproximar perigosamente dos 30–33 °C — um risco real.
1.4. Efeitos mesmo abaixo do limite: TWs de 27 °C a 34 °C também matam
O estudo publicado na Science Advances mostra que a maioria das mortes causadas por calor acontece em TWs muito abaixo de 35 °C. Por exemplo:
- A onda de calor que matou mais de 70 mil pessoas na Europa em 2003 teve picos de TW de apenas 28 °C.
- A Rússia em 2010, com mais de 50 mil mortes relacionadas ao calor, também não ultrapassou TW de 30 °C.
Por que isso acontece?
- Pessoas idosas, doentes, trabalhadores ao sol e moradores de áreas sem ventilação ou ar-condicionado são especialmente vulneráveis.
- Mesmo em TW de 29–32 °C, o suor se torna insuficiente para resfriar o corpo durante o esforço físico.
- Trabalhadores rurais, catadores, pedreiros, crianças e populações empobrecidas não têm como evitar a exposição contínua.
Ou seja: TW de 35 °C é o limite da sobrevivência fisiológica total, mas TW de 28 °C já pode matar dependendo das condições sociais e físicas do indivíduo.
1.5. A diferença entre a temperatura comum e a TW na prática
Vamos comparar dois cenários:
| Cenário | Temperatura do ar (bulbo seco) | Umidade relativa | TW estimada | Efeito no corpo humano |
| Deserto seco | 40 °C | 10% | 23 °C | Suor evapora facilmente; corpo resfria |
| Floresta úmida | 34 °C | 90% | 32–33 °C | Suor evapora mal; risco de estresse térmico |
Esses dois cenários mostram que a mesma temperatura do ar pode ter efeitos muito diferentes no corpo, dependendo da umidade.
1.6. Onde já houve TW de 35 °C? E o que isso significa para o Cerrado?
O estudo de Raymond et al. (2020) documenta ocorrências pontuais de TW de 35 °C no Golfo Pérsico e na Índia, geralmente por curtos períodos de 1 a 2 horas. Isso já ultrapassa o limite de sobrevivência e indica que o planeta já está flertando com condições incompatíveis com a vida humana em alguns locais.
E o Cerrado?
- Ainda não atingiu TW de 35 °C, mas já apresenta TWs entre 27 °C e 29 °C em dias extremos.
- Com o aquecimento global de até 4 °C até 2075 e a perda de 80% da vegetação, os modelos indicam que a região poderá atingir TW > 32 °C a 34 °C e, em algumas áreas, se aproximar de 35 °C.
- As áreas desmatadas, expostas e degradadas serão as primeiras a sofrer os efeitos extremos.
1.7. Por que TW é a medida mais importante para o futuro do clima humano
A maioria das pessoas presta atenção apenas na temperatura “do ar” (bulbo seco), mas isso não revela os riscos reais à saúde. A TW é como um termômetro da capacidade do corpo de sobreviver ao clima atual.
Com a intensificação das mudanças climáticas, a TW está se tornando a principal medida para saber onde ainda será possível viver, trabalhar e plantar no futuro.
TW é o novo termômetro da habitabilidade humana no planeta.
2. A Rota do Aquecimento no Cerrado: Entre 2 °C e 4 °C até 2075
Estudos do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change)[2] e projeções regionais indicam que a temperatura média no Cerrado pode aumentar de 2 °C a 4 °C até 2075. Isso pode não parecer muito à primeira vista. Mas pequenas elevações médias causam aumentos gigantescos nas extremas térmicas e nos dias com condições insalubres.
Um dia típico no Cerrado atualmente pode atingir TW entre 27 °C e 29 °C. Com o aquecimento e o colapso da vegetação, teremos situações de TW acima de 32 °C ou mais em meados do século, e talvez até 35 °C após 2075.
3. O Papel da Vegetação: Sem Planta, Sem Resfriamento
O Cerrado é um sistema biogeográfico que regula o clima por meio da evapotranspiração — a liberação de umidade pelas plantas. Quando a vegetação natural é suprimida, esse mecanismo desaparece. O solo aquece mais rápido, a umidade diminui e surgem ilhas de calor rurais, mesmo fora dos grandes centros urbanos.
Segundo o Instituto Altair Sales (IAS), 80% da vegetação original do Cerrado pode desaparecer até 2074, caso o desmatamento continue no ritmo atual. Esse dado é alarmante porque a vegetação atua como um “ar-condicionado natural”. Sem ela, o calor fica aprisionado e a umidade no ar desaparece — uma combinação mortal.
4. Impactos em Cadeia: Humanos, Animais e Plantas em Risco
Conforme nos aproximamos de TW 35 °C, os efeitos se agravam progressivamente. Veja um resumo baseado nas projeções do IAS:
| Período | TW Estimada | Impactos Humanos | Impactos Animais | Impactos na Vegetação |
| 2025 (atual) | 27 °C – 29 °C | Estresse térmico em ondas de calor | Espécies adaptadas resistem; exóticas sofrem | Perdas sazonais em lavouras |
| 2030–2050 | 30 °C – 32 °C | Redução da produtividade e aumento de internações | Maior mortalidade animal | Redução do crescimento vegetal |
| 2050–2075 | 32 °C – 34 °C | Dias insuportáveis ao ar livre | Colapso de ecossistemas frágeis | Aumento de queimadas e morte de árvores |
| Após 2075 | TW ~35 °C | Risco de mortalidade súbita | Extinções locais | Desertificação de áreas degradadas |
Fonte: IAS, IPCC, Raymond et al. (2020)
5. Um Cenário de Alerta Máximo: A Vida no Limite
Não se trata de uma catástrofe que acontecerá de um dia para o outro. O perigo se apresenta em etapas. Cada fração de grau aumenta o sofrimento e reduz a capacidade de adaptação da vida. Populações vulneráveis, como idosos, trabalhadores rurais e pessoas em extrema pobreza, serão as mais atingidas. A migração forçada, a perda de lavouras e colapsos ecológicos podem se tornar comuns.
Além disso, muitos animais não conseguirão migrar ou se adaptar rapidamente. Ecossistemas inteiros poderão desaparecer. Espécies agrícolas também deixarão de ser viáveis sem investimento massivo em irrigação e climatização artificial — o que é inviável em larga escala.
6. Cerrado em Alerta: Quando Calor e Umidade Rompem o Limite da Vida
Para que o Cerrado brasileiro se aproxime de eventos de Temperatura de Bulbo Úmido (TW) de 35 °C, é necessário que a temperatura do ar (conhecida como bulbo seco) ultrapasse os 38 °C e a umidade relativa do ar esteja acima de 85% a 90%. A TW é um indicador que combina calor e umidade e reflete diretamente a capacidade do corpo humano de resfriar-se por meio da evaporação do suor. Quando a TW atinge 35 °C, o corpo perde essa capacidade fisiológica de regulação térmica, o que pode resultar em colapso por hipertermia, mesmo em repouso, com sombra e hidratação. Este é, portanto, o limite superior da sobrevivência humana sob calor úmido.
O Cerrado, até o momento, não apresentou registros diretos de TW de 35 °C, mas já demonstra sinais de aproximação a este patamar em episódios extremos. Especialmente em dias abafados logo após chuvas intensas, é comum que a temperatura fique entre 32 °C e 34 °C, enquanto a umidade relativa ultrapassa os 80%. Nessas condições, a TW pode atingir valores entre 30 °C e 32 °C, o que já é suficiente para provocar estresse térmico em humanos e animais, além de comprometer a produtividade agrícola. Tais episódios são mais prováveis em áreas degradadas, desmatadas ou irrigadas, onde o solo exposto aquece rapidamente e a evaporação superficial intensifica a umidade local.
As projeções para as próximas décadas, baseadas em estudos do Instituto Altair Sales e do IPCC, indicam que a temperatura média do Cerrado poderá subir entre 2 °C a 4 °C até 2075. Essa elevação, combinada com a perda de até 80% da vegetação natural, ampliará os extremos térmicos e alterará o ciclo hidrológico regional. Um cenário provável é o de chuvas mais concentradas em curtos períodos, seguidas por longas estiagens. Isso criará o ambiente ideal para eventos críticos de calor e umidade: muito calor acumulado no solo, seguido de umidade elevada após as chuvas — condições favoráveis ao surgimento de TWs acima de 32 °C e, eventualmente, de até 35 °C em locais pontuais.

O gráfico de dispersão apresenta cada ponto com uma combinação de temperatura do ar e umidade relativa, com a cor indicando a Temperatura de Bulbo Úmido estimada (TW). Os valores numéricos ao lado dos pontos reforçam a leitura direta de TW em cada caso.
Embora a TW de 35 °C ainda não ocorra no Cerrado, o avanço do desmatamento, o aumento das temperaturas e a intensificação dos eventos climáticos extremos tornam o risco cada vez mais real. O gráfico apresentado mostra claramente que apenas pequenas variações nos níveis de umidade e temperatura podem empurrar a região para zonas de risco térmico extremo. Isso torna urgente a preservação da vegetação natural e a contenção das emissões de gases de efeito estufa, para evitar que o sistema biogeográfico atinja níveis de inabitabilidade para a vida humana e não humana.
Simplificando
Quando a umidade do ar ultrapassa os 90%, especialmente em temperaturas elevadas, a sensação térmica se torna extremamente desconfortável para os seres vivos. Isso ocorre porque a umidade interfere na capacidade do corpo de perder calor através da transpiração. Normalmente, o suor evapora e resfria a pele, mas quando o ar está saturado de umidade, a evaporação se torna ineficaz, levando à sensação de abafamento extremo.
Para os seres humanos, essa combinação pode resultar em problemas de saúde, como exaustão térmica e até mesmo insolação, pois o corpo luta para regular sua temperatura interna. Em animais, especialmente aqueles que dependem da evaporação para resfriamento, como cães (que ofegam para dissipar calor), ambientes muito úmidos e quentes podem ser fatais. Plantas também podem sofrer: embora a umidade alta possa ajudar a reduzir a perda de água pelas folhas, temperaturas elevadas podem provocar estresse térmico e afetar o crescimento.
Ambientes como florestas tropicais são exemplos naturais onde a umidade é constantemente elevada, mas a biodiversidade adaptou-se a essas condições ao longo do tempo. Em locais urbanos ou regiões não adaptadas, essa combinação pode ser desafiadora e até perigosa.
No Cerrado, a relação entre umidade do ar elevada e temperaturas altas pode ter impactos significativos na vida vegetal, animal e humana. Esse sistema biogeográfico é caracterizado por um clima sazonal, com períodos de seca e chuva bem definidos. Durante a estação chuvosa, a umidade pode aumentar consideravelmente, e quando combinada com temperaturas elevadas, pode criar um ambiente abafado e desafiador para a sobrevivência.
Impactos no Cerrado:
- Plantas: Muitas espécies do Cerrado são adaptadas à seca e possuem mecanismos para lidar com a falta de água, como raízes profundas e folhas resistentes. No entanto, a alta umidade pode favorecer o crescimento de fungos e doenças que afetam a vegetação.
- Animais: Espécies adaptadas ao clima seco podem sofrer com o excesso de umidade, especialmente aquelas que dependem da evaporação para regular a temperatura corporal.
- Seres humanos: O calor combinado com alta umidade pode aumentar a sensação térmica e dificultar a regulação da temperatura corporal, tornando o ambiente desconfortável e até perigoso para atividades físicas intensas.
7. É Possível Evitar Esse Futuro?
Sim, mas é preciso agir imediatamente. As principais frentes são:
- Preservar o que ainda resta do Cerrado.
- Impedir novos desmatamentos e restaurar áreas degradadas.
- Cumprir metas de redução de emissões de carbono.
- Educar a população sobre os limites climáticos.
- Planejar políticas públicas voltadas para adaptação e mitigação.
A ciência já mostrou o que vai acontecer. A dúvida é: teremos coragem política e social para agir?
Proteger o Cerrado é Proteger a Nós Mesmos
O Cerrado está diante de um dilema: continuar sendo explorado sem limites até colapsar, ou ser protegido como fonte de equilíbrio climático e vida. Ignorar os alertas dos cientistas, dos termômetros e dos corpos humanos que já sofrem com o calor pode nos levar ao ponto sem retorno.
A Temperatura de Bulbo Úmido de 35 °C é apenas um número — mas representa o limite absoluto da vida como conhecemos. Proteger a vegetação, a biodiversidade e os povos do Cerrado é garantir um futuro habitável para todos.
Referências:
- Raymond, C. et al. (2020). The emergence of heat and humidity too severe for human tolerance. Science Advances.
- IPCC – AR6, 2021.
- Instituto Altair Sales – Projeções de desmatamento e cenários para 2075.
- Apresentação IAS + TW (2024).
[1] Artigo escrito com apoio de IA generativa. Ao autor coube: a) definir tópicos do artigo; b) estabelecer o contexto para cada tópico; c) elaborar os comandados significativos para cada tópico; d) revisar e validar o conteúdo gerado em cada tópico; e e) definição da redação final de cada tópico.
[2] Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas: um órgão das Nações Unidas criado em 1988. É um grupo de cientistas que avalia a ciência relacionada às mudanças climáticas e fornece relatórios de avaliação para ajudar os governos a tomar decisões sobre políticas.
Leia também:
Destruição silenciosa: como a perda do Cerrado arruína o futuro
Relacionado
Descubra mais sobre Instituto Altair Sales
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




