A corrida desenfreada pela expansão agropecuária ameaça este sistema vital para o equilíbrio ambiental e os recursos hídricos do Brasil, entenda
No Dia Nacional do Cerrado, há pouco a se comemorar com ondas de queimadas e crises climáticas pré-anunciadas. Assim, o Cerrado, a savana tropical mais rica do mundo, está à beira de um colapso irreversível. Estudo recente, publicado no artigo “O Cerrado Brasileiro e o seu Futuro”, apresenta uma visão alarmante da situação atual e futura desse bioma fundamental, que abrange cerca de 23% do território nacional e sustenta 70% das bacias hidrográficas do Brasil. As projeções indicam que, sem intervenções drásticas, o Cerrado pode perder mais de 80% de sua vegetação nativa até 2064, levando ao colapso de seus ecossistemas e comprometendo a biodiversidade e os recursos hídricos do país.
Os pesquisadores do Instituto Altair Sales (IAS), doutores Altair Sales Barbosa e José Aluízio Ferreira Lima, elaboraram juntos o artigo “O Cerrado Brasileiro e o seu Futuro”. O documento é formado por três artigos interligados formando um todo coeso. O primeiro artigo “Situação Atual e o Futuro Próximo do Cerrado” tem como base estudo usando recursos estatísticos e de Big Data Analyses e busca descrever, com base no chamado Índice de Integridade do Cerrado, derivado de uma proposta da ONU[1], modificada e adaptada para este estudo, a situação atual e a futura do Cerrado Brasileiro num horizonte de 40 anos. É um artigo bastante extenso.
O Índice de Integridade e o Futuro do Cerrado
Com base no Índice de Integridade do Cerrado, derivado de uma proposta da ONU e adaptado para o estudo, os pesquisadores traçaram um cenário preocupante para os próximos 40 anos. A análise indica que a destruição acelerada do Cerrado, impulsionada pela expansão agropecuária, mineração e urbanização, pode resultar na perda de 1.543.189 km² de vegetação nativa – o equivalente à soma das áreas de países como França, Alemanha e Reino Unido.
Atualmente, menos de 41% da vegetação original do Cerrado permanece intacta, e as estimativas para 2024 são sombrias: restarão apenas 38,75% da cobertura vegetal nativa. Se nada for feito, o percentual cairá para 22,24% em 2064, levando o Cerrado ao seu “limite de resiliência”, quando sua capacidade de regeneração natural for superada, o que resultará em um ecossistema irreversivelmente degradado.
O Impacto da Destruição e o surgimento de um Novo Sistema
O segundo artigo da série explora as consequências da manipulação do Cerrado, com a emergência de sistemas biogeográficos artificiais ou subnaturais. A transformação da paisagem resultante da destruição do vegetação original não criará um novo Cerrado, mas sim uma região geográfica com características biológicas completamente distintas. A fitofisionomia e geomorfologia do Cerrado poderão ser tão alteradas que a diversidade de espécies, hoje um dos maiores patrimônios naturais do Brasil, será significativamente menor.
Os pesquisadores destacam que a substituição da vegetação nativa por pastagens e culturas exóticas está destruindo a integridade do solo e prejudicando a função hidrológica do Cerrado, levando a um aumento na erosão e no assoreamento de rios e mananciais.
O Ceticismo Esperançoso: Estratégias para o Futuro
Apesar do cenário devastador, o terceiro artigo sugere um “ceticismo esperançoso” e aponta caminhos para a mitigação dos impactos e a transição para um novo sistema que, embora diferente do Cerrado original, possa garantir suporte à vida e à biodiversidade. Entre as soluções propostas estão o aumento da fiscalização sobre as áreas de reserva legal, a aplicação rigorosa de leis ambientais, e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis que reduzem o desmatamento.
Um ponto central dessa transição envolve o uso de inteligência artificial e Big Data para monitorar o avanço da destruição e prever cenários futuros. A tecnologia, segundo os autores, é uma ferramenta poderosa para orientar políticas públicas e estratégias de conservação.
A Importância das Reservas Legais e os Desafios do Cadastro Ambiental Rural (CAR)
As áreas de reserva legal, que deveriam preservar ao menos 20% da vegetação nativa, não estão sendo cumpridas de forma adequada. Um passivo de mais de 64.725 km² de áreas que deveriam ser protegidas foi identificado em 2022, de acordo com o estudo “Regularidade Ambiental das Áreas de Reserva Legal do Cerrado Brasileiro”. Esse déficit agrava ainda mais a situação, destacando a necessidade urgente de medidas mais eficazes de fiscalização e cumprimento das normas ambientais.
[1] O Índice de Integridade da Biodiversidade (BII) da ONU é uma ferramenta desenvolvida para medir a integridade ecológica e a saúde da biodiversidade de um ecossistema. O BII é uma métrica quantitativa que ajuda a avaliar até que ponto a biodiversidade de uma região se mantém funcional e resiliente diante das pressões ambientais e das atividades humanas.
Leia o artigo na íntegra. Isso é muito importante:
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